Legislação

Para o aumento da eficiência logística do setor de distribuição de combustíveis são necessários R$ 6 bilhões em investimentos, aponta estudo

Publicado em 29/10/2019 por Alessandra de Paula

Quais são os principais gargalos logísticos no setor de distribuição de combustíveis e o que é preciso fazer para resolver os problemas que afetam o crescimento do país? O estudo Priorização de Investimentos em Infraestrutura Logística para o Downstream (confira aqui o estudo) lança luz sobre essas questões e demonstra a necessidade urgente de investimentos em portos, dutos e ferrovias, como destaca Marcus D’Elia, diretor-executivo da Leggio Consultoria, responsável pelo diagnóstico. Confira a entrevista completa:

Plural: Como foi realizado o estudo Priorização de Investimentos em Infraestrutura Logística para o Downstream?

Marcus D’Elia: Trabalhamos com diferentes cenários, levando em conta maior ou menor demanda de etanol e preços de aquisição que refletem as condições de mercados atuais ou preços de paridade internacional. Levamos cerca de oito meses para concluir o estudo, que alia um modelo matemático a uma visão de mercado, trazendo resultados práticos e precisos. Conseguimos identificar infraestruturas que são importantes em todos os cenários testados, com destaque para os portos de Santarém e Vila do Conde (Pará); Porto de São Francisco do Sul (Santa Catarina); a nova ferrovia Ferrogrão, entre os municípios de Cuiabá (Mato Grosso) e Santarém; e os dutos ORSUB (Oleoduto Recôncavo-Sul da Bahia) e OSBRA (Oleoduto São Paulo-Brasília). O porto do Pecém (Fortaleza) também é interessante para o setor de distribuição.

Plural: Em quais cenários será preciso fazer mais investimentos?

Marcus D’Elia: Existe uma pequena variação nos valores de investimentos, mas, de maneira geral, são necessários R$ 6 bilhões para infraestrutura específica de combustíveis líquidos (dutos, terminais aquaviários, ferrovias específicas para combustíveis…) – é um investimento consistente em todos os cenários. O que a gente vê é que, no caso específico de ferrovias, há uma necessidade de investimentos multissetoriais para ampliação e melhoria na malha ferroviária – em vias como a Ferrogrão (Ferrovia que interligará o Mato Grosso ao Pará ), que é uma ferrovia nova – da ordem de R$ 37 bilhões. E essa malha ferroviária será utilizada para diferentes cargas, como grãos, minérios, líquidos…

Plural: Já está sendo feito algo pelo Governo Federal no sentido que o estudo aborda? 

Marcus D’Elia: Sim, algumas concessões já foram feitas esse ano alinhadas com os resultados do trabalho, como Miramar e Vila do Conde, Vitória, e o último terminal leiloado em Santos. Então você tem alguns desses portos já recebendo investimentos, e a gente espera também que, com a renovação das concessões das ferrovias, sejam feitos investimentos para ampliação e melhorias das vias. A própria concessão da Ferrogrão já foi anunciada para o primeiro trimestre do próximo ano. Esperamos que seja feita. Tem algumas coisas que já foram executadas e outra parte está planejada.

Plural: Se os gargalos logísticos não forem resolvidos, quais os prejuízos para o setor de distribuição de combustíveis e para a sociedade como um todo?

Marcus D’Elia: Estimamos que, caso os gargalos não sejam solucionados, os custos adicionais de abastecimento de combustíveis no país aumentarão em R$ 1 bilhão por ano. Para resolver esse problema, será preciso gastar R$ 6 bilhões.

Plural: Os principais terminais portuários e dutos existentes, além daquele que estão em editais do governo, foram escolhidos para fazer parte do cenário. Isso dá maior previsibilidade ao estudo? Torna ele mais perto da realidade?

Marcus D’Elia: Essa foi a ideia. Quando a gente olhou para o plano do novo Governo Federal, verificamos que várias dessas infraestruturas estão no radar do governo, isso dá uma confiança maior na priorização das infraestruturas que apontamos. O que a gente observa é que há coerência com as necessidades do mercado, e isso é bastante positivo.

Plural: O governo acaba de contingenciar recursos, inclusive das áreas da saúde e educação. O senhor acredita que os investimentos apontados no estudo serão realmente realizados?

Marcus D’Elia: Eles têm boa chance de ser realizados. Na verdade, esses investimentos são através de concessão, então, eles são fonte de arrecadação para o governo, que captura recursos quando faz essas concessões, ao contrário de gastar recursos, como no caso da saúde e educação. E mesmo os investimentos em novas ferrovias, como é o caso da Ferrogrão, certamente serão feitos por meio de concessão, com apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Na medida em que faz a concessão, o governo cria uma fonte de receita para ele, o serviço é realizado e o investimento é feito pelo setor privado, acredito que esse é o melhor modelo para incentivar a melhoria e ampliação da infraestrutura.